Quem?

Quem cuidará da saúde do médico?
Quem educará o filho da babá?
Quem vai contar histórias para a mãe dormir?
Quem ouvirá o dilema do psicólogo?
Quem limpará a casa da empregada doméstica?
Quem vai dirigir o ônibus para o motorista?
Quem protegerá o segurança?
Quem ensinará o professor?
Quem vai apascentar o pastor?
Quem organizará a agenda da secretária?
Quem socorrerá o bombeiro?
Quem vai preparar a comida para o cozinheiro?

Quem ouvirá quem protegerá quem socorrerá quem educará quem viverá…

Quem se importa?

eu to ficando velho…eu to ficando louco

eu to ficando velho...eu to ficando louco

“discurso..discurso….discurso ♪

– então, eu quero agr….

EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

parô, deixa o cara falar…

Sou muito suspeito pra falar de mim. E não tenho muito o que falar. Vou falar o que? Posso dizer um pouco o que foi o ano que passou….

Foi um ano desafiador, não sou de prometer nada, nem de colocar no papel projetos e metas que preciso alcançar, mas percebi que estava precisando de emoção na minha vida. Saí do eixo, me permitir a aprender. Não estou falando (só) da sala de aula, mas dos corredores da escola, dos corredores da vida. Me permitir a ficar calado, perceber um pouco o que passava ao meu redor, o que fizeram de mim e o que estou fazendo com o que fizeram de mim. Conheci gente nova, lugares novos, sabores novos.

Foi um ano que cuidei mais de mim, não sei se “cuidei” é a palavra certa, mas conversei bem mais comigo, me sentei na cadeira para me dar broncas, fiz um monte de perguntas, foram tantas que em alguns momentos ficava com raiva de mim mesmo. E foi bom. Foi bom para perceber que a vida não é tudo aquilo que eu quero que ela seja, que ela não tem que ser e não vai ser do jeito que eu quero que seja. Também para perceber que não devo criar nenhum ideal de mim mesmo para me sentir melhor. Quero que o ano que se inicia venha ser de mais aprendizado e de aventuras, como fazer trilha em mata fechada e sair igual um louco desvairado para chegar no local da prova antes do portão se fechar.

Deixa eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar…

Ninguém muda ninguém. Posso ser a razão pela qual alguém mudou, mas eu não tenho o controle de mudar o que o outro escolheu para ele. As pessoas só mudam quando algo afligem elas, quando o mundo delas desmorona. Não adianta forçar, não adianta querer ajudar se o outro não perceber que ele precisa entender certas coisa na vida. Não o fato de mudar para agradar. Ninguém tem obrigação de agradar ninguém, mas lidamos com humanos, não somos isolados, dependemos do outro, mesmo que isso nos incomode, e dependeremos do outro, seja ele qual for, até o fim da vida.

Mas tem pessoas que não muda nunca, não tem maturidade de enxergar a vida. Convive com as mesmas pessoas, vive no mesmo lugar e não percebe que faz o outro sofrer, ou até percebe e tem um prazer nisso. São pessoas totalmente frágeis, incapazes de ser gente, incapazes de amar. É um tipo de pessoa que sofre, mas o sofrimento não mobiliza ela a mudar, não constrói nada de bonito.

É um tipo de pessoa que se você perguntar para ela se está tudo bem, ela irá dizer que sim. Mas se você perguntar para as pessoas que convive com ela ouvirá reclamações. Ela é um problema para os outros.

E quando vemos esse tipo de pessoa acabamos tendo paciência, por justamente ser incapaz de enxergar que ela é um problema. Damos chances,  toleramos algumas atitudes, nos disponibilizamos em ajudar, mas não adianta. Sabe porque não adianta? Porque a pessoa não quer se ajudar, não quer ser gente, não quer entender o próximo. Ela transforma os outros em refém da miséria que carrega.

Todos passamos por sofrimentos, alguns por sofrimentos maiores, pessoas que são frustadas, traumatizadas por algum motivo. Mas é um perigo dar muita atenção pra esse tipo de gente. Não podemos viver a mercê disso. Ainda não entendo muita coisa dos humanos, não sei até que ponto alguém não consegue ter a capacidade de mudar o que a vida fez dele, de superar suas angústias, suas frustrações e encarar a vida como gente. Mas não tenho tenho paciência com pessoas que veio na vida passear, é infantil desde o momento em que nasceu, não criou personalidade, não tem saúde mental, e é orgulhoso e egoísta.

Com o passar do tempo vamos enxergando certas coisas. Uma coisa eu percebi: não se ajuda ninguém que não se dispõe em se ajudar. Se a pessoa quiser ir pro inferno, fazer a vida dela um inferno, tudo bem, mas não arraste  as pessoas que estão encarando a vida com dignidade e que se dispõem a amar o outro. Vivemos em uma época em que falta longanimidade, não falo nem do amor, mas da longanimidade, de entender antes de julgar, de compreender, de um ânimo longo com aquele que precisa de apoio, mas tentar entender o outro o tempo todo também cansa. Acho que as pessoas estão precisando ficar mais sozinhas, não para se insolar dos outros, mas para enfrentar si mesmas, não ter medo de si, não ter medo da companhia da solidão. As pessoas precisam se tratar para deixar de ser um problema para os outros.

Sutileza Perigosa

Sutilmente a sociedade vai criando lugares onde cada um tem o seu espaço. Ela te diz os lugares que você pode frequentar, que ambientes deve ir, os estabelecimentos que deve comprar. Não existe em nenhum lugar placas do tipo “Proibido entrada de pobres”, “Proibido entrada de negros”, “Proibido entrada de pessoas mal arrumadas”. Óbvio que não. Hoje você pode ir para qualquer lugar, seja em um bairro pobre ou um bairro nobre,  um shopping de luxo ou no comércio popular, no restaurante de frutos do mar ou nas lanchonetes mais simples. Quem te proíbe disso? Quem estabelece onde você deve ir ou não? Afinal, você está num sistema democrático, onde você é livre não é mesmo?
A desigualdade é discreta, a rejeição é silenciosa. É por olhares, comportamentos disfarçados, pelo segurança falando no radinho com seu colega de trabalho, na forma do vendedor te atender, nos produtos que colocam em cada estabelecimento.
O segurança da boutique é treinado para desconfiar das pessoas que é da mesma classe social que a dele, mas nem precisa treina-lo, de onde ele vem e na sociedade que ele mora sabe muito bem diferenciar quem é quem, ele só não conhece o coração de quem está atrás das jóias nem de quem acabou de descer do “busão”. O próprio segurança, mesmo usando roupas parecida com a do seu chefe também sofre preconceito, os que o cercam também sabem diferenciar quem é quem, só não conhecem o coração do segurança.
Um supermercado de um bairro nobre da cidade é diferente do supermercado do bairro mais simples, sendo eles da mesma rede. Os pães e bolos, a organização, o atendimentos, entre outros aspectos. Nada contra o bom gosto nem a organização excelente. Mas porque só acontece de um lado da cidade?
Essa sutileza perigosa influencia até no convívio um com o outro, nos relacionamentos. Vivemos em um lugar onde pessoas são tratadas com estereótipos o tempo todo, o seu jeito de se vestir mostra quanto que você tem no bolso, o tipo de musica que escuta e o lugar onde mora. A própria sociedade que fala em combater os preconceitos é a mesma que a cada dia cria um novo padrão de vida, um novo estilo que exclui algum tipo de público. Mas tudo de forma discreta, vamos manter os bons modos e lidarmos com os outros de forma igual.
Não estou dizendo que os ricos são arrogantes e preconceituosos e pobres são vitimas de injustiça. Preconceitos e arrogância vemos por todos os lados, em qualquer lugar do mundo, independente de classes, etnias , religião, etc. Da mesma forma existe pessoas que lutam por respeito e tratam os outros com dignidade independente de qualquer coisa. Também não digo isso por me sentir vitimizado em ser negro e pobre, até porque ao mesmo tempo que sou vitima de preconceitos também provoco vários. Vivo numa sociedade medrosa que ao se defender da criminalidade acaba tendo um comportamento violento também. Pior, cria muros invisíveis se afastando da realidade. Talvez todos nós somos vítimas da própria sociedade que criamos, vai além da desigualdade social, racismo e violência. É uma sociedade sem valores, uma sociedade que ainda não é sociedade. Pessoas sendo vistas e tratadas como coisas, pessoas se coisificando, a loucura é a nestecia, e a diferença ainda é intolerável. Estamos tropeçando nas pedras que nós mesmos jogamos no caminho.

O moço que sorriu

Ele não parecia ser daquela vila, era diferente de todos. Na Vila Seca, extremo da cidade grande, as pessoas tinham uma vida difícil, eram mal humoradas sem perspectiva de vida, uma vila pouco valorizada, sem muitos recursos. Apesar disso, Isaque tinha um comportamento diferente daquela gente. Acordava sorridente, brincava com os cachorros que ficavam na rua, e fazia careta para os ferozes que latiam atrás dos portões. Dava bom dia para as pessoas que encontrava no trajeto do trabalho. Com seu jeito galanteador fazia graça com as moças bonitas que encontrava pelo caminho, elas esnobavam, mas ele não resistia, o dia só tinha graça quando apreciava a beleza feminina. Conversava com Zé do boteco como se fossem amigos íntimos. Mesmo depois do ônibus demorar quarenta minutos para passar, estava ele lá, com o ar da graça dando bom dia e desejando boa semana para todos. As pessoas olhavam para ele como se fosse um louco, ficavam a pensar como uma pessoa poderia estar sorridente morando numa vila escassa, sem vida. Alguns até achavam que Isaque era um amostrado, fingia ser boa gente. Apesar da alegria constante do moço as pessoas não colocavam credibilidade, para eles era patético seu comportamento.

No trabalho, uma quitanda, atendia as pessoas com entusiasmo, fazia poesia para as moças que iam comprar verduras pro almoço, era prestativo em ajudar às senhoras levar as sacolas pesadas para casa puxava assunto de futebol com o Olavo, um senhor vizinho do estabelecimento. Ganhava pouco, muitas vezes contava as moedas para comprar os livros que gostava de ler.

Apartava as brigas do Juvenal e do Manoel no boteco do Zé, eles constantemente se estranhavam por causa de jogo, os dois se odiavam. Isaque, com um discurso de paz e respeito com o próximo tentava amansar os beberrões. O jovem que pouco sabia sobre a vida, dava lição de moral nos marmanjos que brigavam feito crianças.

Não era todos os dias que Isaque acordava disposto, com o mesmo entusiasmo. Como morador da Vila Seca sofria também os dilemas de uma cidade mal valorizada, e tinha angustias que atormentavam o peito. Mas se esforçava ao maximo para que seus dias valessem a pena.

Mais um dia se repete, Isaque continua com sua disposição a viver, sorriso no rosto, entusiasmo no olhar, conversas esperançosas, brincando com os cachorros, elogiando as moças, mas sendo ignorado como se fosse um anormal. Isaque percebia alguns olhares frios, gestos indiferentes, mas não parecia ligar muito para aquelas atitudes que via ao seu redor, ele não gostava de levar a vida de forma amarga, mesmo convivendo num cenário ruim. Para aquela cidade tão castigada pela falta de afeto qualquer atitude positiva era vista como um absurdo. Os moradores levavam a sério o nome da vila.

Certo dia amanhece e o Isaque não vem. Não tem ninguém para brincar com os cachorros, o Zé do boteco não terá aquela conversa empolgante, ninguém ganhará um bom dia entusiasmado, e as moças não serão admiradas. As pessoas no ônibus estranha a ausência do moço amostrado que trazia palavras otimistas para todos. O sr. Olavo não terá companhia para falar do futebol e as senhoras vão levar as sacolas pesadas sem a ajuda do moço alegre.

O tempo fechou, a alegria sumiu. Isaque faleceu. Por conseqüência de um saneamento precário da vila, ele foi contaminado pela peste bubônica, uma grave doença transmitida por animais roedores.

O dia seguinte após seu falecimento, a Vila Seca recebe a notícia da morte do Isaque com um tremendo espanto. Eles perderam sorrisos e alegria. As moças bonitas choram, os cachorros não abanam mais o rabo, até aqueles que o criticavam já sentia falta da presença do moço alegre. Quem mais vai trazer alegria para essa vila tão seca? Seca de afeto, seca de espontaneidade, seca de amor.

A vida do Isaque fazia uma enorme diferença para aqueles corações rancorosos e orgulhos. Só depois da morte do moço alegre, a Vila percebeu que viver sem afeto não valia a pena.

Depois da morte do Isaque a Vila Seca ganhou Vida. Todos da vila começaram a seguir o exemplo do moço alegre. Os vizinhos acordam dando bom dia para os outros, os cachorros da rua também são cumprimentados. O Juvenal e o Manoel, quem diria! Até aqueles beberrões briguentos fizeram as pazes, parecem agora amigos de infância. As sacolas pesadas das senhoras são carregadas pelos jovens, as moças bonitas se enfeitam cada vez mais, e no ônibus as pessoas conversam sobre a vida com esperança no olhar.

Isaque ensinou com gestos simples para aquela vila…que não é mais seca, que a disposição para enfrentar a vida com amor, mesmo em situações de escassez, vale a pena.

Só parece

Olhando assim parece verdade o que ele diz. Vendo daqui parece um cara resolvido, maduro, que sabe viver com sabedoria, mas a imagem não é real. Na roda com os amigos gosta de chamar atenção, é o mais extrovertido, os contos são os mais intensos, sua inteligência é admirável. Segundo suas conversas, faz sucesso com a mulherada, tem o estilo boêmio, é corajoso, despojado e sempre está pronto para outra…outra farra, outra aventura, qualquer outra coisa que seja um refúgio de se livrar dele mesmo. Fraqueza não é com ele, acorda todos os dias como se a vida fosse a Disney.
Pobre homem, grita liberdade no cativeiro que ele próprio criou. Não sustenta o discurso que diz. Fala o tempo todo, não consegue ouvir, não consegue calar. Está rodeado de gente mas continua só, precisa estar constantemente na presença das pessoas porque não consegue se aturar, a solidão é sua maior inimiga. Amola os outros com os contos extravagantes que inventa, se comporta como um bobo. Acha que tem amigos de verdade, mas aqueles que o rodeia são outros mascarados. Quando chega a noite, deita a cabeça no travesseiro e chora angustiado sentindo falta de afeto, não consegue lidar com seus medos e inquietações, o travesseiro é o unico que vê suas lagrimas. Mas ele não se dispõe a quebrar seus orgulhos. Imagina que ele vai expor seus sentimentos para alguém, é absurdo! Prefere trancar no peito as angustias que o aflige. Ainda vive na influência de uma sociedade machista que tem que mostrar uma postura viril e forte, sem ao menos ter a oportunidade de falhar.
Ele continuará vivendo assim: com preconceitos bobos, se orgulhando da falsa imagem que insiste em mostrar para os outros. A procura de mais uma dose, de mais uma aventura sexual e de menos vida. Ele vai continuar nessa procura porque ainda não se encontrou.
Olhando assim parece que ele está bem, mas não é real.