O afeto no meio da desesperança

Sabe aquele dia que você não quer ver gente na sua frente? Da agonia só de pensar que vai ter que pegar um onibus cheio de pessoas que estarão reclamando do dia que tiveram?
Eu ando desesperançado com a humanidade, de saco cheio da mesmice. É como se as pessoas fossem todas iguais. Desejam e reclamam das mesmas coisas e reduzem a vida com os problemas pessoais. Desconfio de atitudes boas vindo de quem precisa mostrar isso o tempo todo pra todo mundo. O excesso de gentileza e bondade me faz questionar se é verdade ou vaidade. Isso acontece porque vivo em um mundo de medo e consequentemente de mentiras.

E no meio desse tédio e impaciência uma cena me chamou atenção. Voltando pra casa entro no onibus e em seguida sobe um senhor com varias sacolas na mão. Ele deixa as sacolas no banco, abre uma delas e presenteia o motorista e o cobrador com alguns pães doces.
Essa imagem foi como um balde de tinta sendo lançado em uma tela branca. Tão simples, mas tão nobre. Pensar que ele foi no mercado comprar as coisas de casa mas pensando em presentear um motorista e um cobrador. Pode parecer comum, mas deixa de ser comum quando isso não está presente no seu dia dia, quando o mais comum seria pessoas reclamando que o motorista está andando devagar ou o cobrador dormindo.
Eu ainda estou desesperançado porque a mediocridade é maioria, mas não é unânime.
Hoje o afeto me constrangeu e me deu um pouco de vida. E no dia dia, mesmo que eu não veja, vai sempre existir alguém que estará fora da mediocridade interrompendo as vidas cinzas com um pouco de cor, nem que seja presenteando com pão doce.

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