Conversando com um projeto de gente

O Erik é uma criança que minha mãe cuida durante alguns dias da semana. Ele tem nove anos de idade, mas parece que tem mais…ou não, idade não tem haver com a capacidade de entendimento e boas ideias de um individuo. Gosto de conversar com criança. Assim como elas gostam de fazer perguntas, faço também inúmeras. Pergunto muito para ver como um projeto de gente enxerga o mundo. Fiquei curioso quando minha mãe disse que ele ia ao psicólogo, sempre achei que são os pais que precisam, não as crianças, mas enfim, não sei muito bem como é o dia-a-dia dele. Aproveitei meu curto momento de férias para dialogar com esse camarada, já que ele passa a maior parte do dia assistindo TV. Quem já conversou com uma criança ou tem costume de conversar sabe muito bem que eles não são bobos, apenas tem uma frágil ideia da complexidade da vida. Na conversa que tive com ele, ri, me surpreendi e me envergonhei. Vou postar alguns trechos do diálogo que que tive com essa figura, por mais que seja banal, pra mim foi uma riqueza. Talvez seja isso que dá significados para nossos dias, desbanalizar o banal.

– D: Porque você vai ao psicólogo, tem algum problema?

– E: Acho que não, é que eu tenho muitos medos e pesadelos

– D: humm…mas é normal ter medos e pesadelos, na sua idade também tinha, o que o psicólogo te pergunta?

– E: Ele não pergunta nada, eu fico brincando lá

– D: Sério que ele não faz nenhuma pergunta?

– E: Ele só pergunta que brinquedo quero brincar

– D: Mas, e os seus medos, você acha que isso é ruim pra você?

– E: Medo todo mundo tem, os que dizem que não tem são os mais medrosos

-D: Todo mundo? como você pode falar isso com tanta certeza?

– E: Todo mundo tem algum medo sim, um dia meu amigo que diz não ter medo de nada saiu correndo depois que eu coloquei um filme de terror pra ele assistir.

– D: (risos) Mas é verdade mesmo. Você não consegue ver um lado bom nisso? Qual a parte boa do medo?

– E: Não é parte boa, mas depois que você se acostuma para de ter medo

– D: Humm…tipo, quando você tem um contato constante com o que você tem medo deixa de ter medo? É isso?

– E: É…sim

– D: E a parte ruim de ter medo?

– E: A parte ruim de ter medo é sentir medo

– D: (risos, só risos)

…….

– E: Daniel, me fala um defeito seu

– D: Um defeito meu? ixxii, acho que sou egoista, sei lá, acho isso, e você?

– E: Eu sou muito solidário

– D: solitário?

– E: Não, SOLIDÁRIO, ajudo muito as pessoas, e acabo perdendo bastante.

– D: nossa, mas você acha que ser solidário é um defeito? Você não vê nenhuma vantagem em ser solidário? (lá vai eu perguntar o lado bom da coisa)

– E: O bom de ser solidário é que você ganha amigos, mas perde muitas coisas. Uma vez a menina pediu minha chuteira novinha emprestada, eu fiquei descalço e emprestei para ela, mas ela não me devolveu. Me enrolou, disse que depois entregaria na minha casa, mas foi embora levando minha chuteira, que minha mãe tinha comprado a poucos dias. Acabei indo embora descalço.

– D: Caramba meu, que complicado. E porque você acha que é solidário?

– E: Ah, não sei, eu sinto dó quando vejo gente morando na rua, não gosto de ver as pessoas sofrendo, aí sinto vontade de ajudar. E eu não acho que você é egoísta, você até me ofereceu pão quando a gente estava em casa…

– D: (e mais risos)
Então…não acho que ser solidário é um defeito, você só precisa aprender a lidar com isso, saber a hora de ajudar. Não se ajuda só dando as coisas para os outros, tem outras formas. O fato de você não dar o que o outro quer não significa que você não gosta dele. Mas essa sua capacidade é boa.

– E: hum…entendi

…….

– E: Você tem muitos amigos?

– D: É, amigos são poucos que a gente tem, mas tenho muitos colegas, conheço muita gente legal, e você?

– E: Também tenho muitos amigos…quer dizer, conheço bastante gente. Acho que só tenho um amigo de verdade, mora lá na rua.

– D: Pra você, o que é um amigo de verdade?

– E: Amigo de verdade é aquele que devolve as coisas que pediu emprestado de você e que não te abandona.

– D: Interessante! (apenas risos)

E a conversa foi rendendo…
Ao certo, eram dois projetos de gente tentando responder o que nos aflige e nos afeta, trocando idéias sobre a vida. E foi realmente uma troca de idéias, com certeza ambos aprenderam muito nessa curta caminhada.

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Quem?

Quem cuidará da saúde do médico?
Quem educará o filho da babá?
Quem vai contar histórias para a mãe dormir?
Quem ouvirá o dilema do psicólogo?
Quem limpará a casa da empregada doméstica?
Quem vai dirigir o ônibus para o motorista?
Quem protegerá o segurança?
Quem ensinará o professor?
Quem vai apascentar o pastor?
Quem organizará a agenda da secretária?
Quem socorrerá o bombeiro?
Quem vai preparar a comida para o cozinheiro?

Quem ouvirá quem protegerá quem socorrerá quem educará quem viverá…

Quem se importa?