Sutileza Perigosa

Sutilmente a sociedade vai criando lugares onde cada um tem o seu espaço. Ela te diz os lugares que você pode frequentar, que ambientes deve ir, os estabelecimentos que deve comprar. Não existe em nenhum lugar placas do tipo “Proibido entrada de pobres”, “Proibido entrada de negros”, “Proibido entrada de pessoas mal arrumadas”. Óbvio que não. Hoje você pode ir para qualquer lugar, seja em um bairro pobre ou um bairro nobre,  um shopping de luxo ou no comércio popular, no restaurante de frutos do mar ou nas lanchonetes mais simples. Quem te proíbe disso? Quem estabelece onde você deve ir ou não? Afinal, você está num sistema democrático, onde você é livre não é mesmo?
A desigualdade é discreta, a rejeição é silenciosa. É por olhares, comportamentos disfarçados, pelo segurança falando no radinho com seu colega de trabalho, na forma do vendedor te atender, nos produtos que colocam em cada estabelecimento.
O segurança da boutique é treinado para desconfiar das pessoas que é da mesma classe social que a dele, mas nem precisa treina-lo, de onde ele vem e na sociedade que ele mora sabe muito bem diferenciar quem é quem, ele só não conhece o coração de quem está atrás das jóias nem de quem acabou de descer do “busão”. O próprio segurança, mesmo usando roupas parecida com a do seu chefe também sofre preconceito, os que o cercam também sabem diferenciar quem é quem, só não conhecem o coração do segurança.
Um supermercado de um bairro nobre da cidade é diferente do supermercado do bairro mais simples, sendo eles da mesma rede. Os pães e bolos, a organização, o atendimentos, entre outros aspectos. Nada contra o bom gosto nem a organização excelente. Mas porque só acontece de um lado da cidade?
Essa sutileza perigosa influencia até no convívio um com o outro, nos relacionamentos. Vivemos em um lugar onde pessoas são tratadas com estereótipos o tempo todo, o seu jeito de se vestir mostra quanto que você tem no bolso, o tipo de musica que escuta e o lugar onde mora. A própria sociedade que fala em combater os preconceitos é a mesma que a cada dia cria um novo padrão de vida, um novo estilo que exclui algum tipo de público. Mas tudo de forma discreta, vamos manter os bons modos e lidarmos com os outros de forma igual.
Não estou dizendo que os ricos são arrogantes e preconceituosos e pobres são vitimas de injustiça. Preconceitos e arrogância vemos por todos os lados, em qualquer lugar do mundo, independente de classes, etnias , religião, etc. Da mesma forma existe pessoas que lutam por respeito e tratam os outros com dignidade independente de qualquer coisa. Também não digo isso por me sentir vitimizado em ser negro e pobre, até porque ao mesmo tempo que sou vitima de preconceitos também provoco vários. Vivo numa sociedade medrosa que ao se defender da criminalidade acaba tendo um comportamento violento também. Pior, cria muros invisíveis se afastando da realidade. Talvez todos nós somos vítimas da própria sociedade que criamos, vai além da desigualdade social, racismo e violência. É uma sociedade sem valores, uma sociedade que ainda não é sociedade. Pessoas sendo vistas e tratadas como coisas, pessoas se coisificando, a loucura é a nestecia, e a diferença ainda é intolerável. Estamos tropeçando nas pedras que nós mesmos jogamos no caminho.

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