O moço que sorriu

Ele não parecia ser daquela vila, era diferente de todos. Na Vila Seca, extremo da cidade grande, as pessoas tinham uma vida difícil, eram mal humoradas sem perspectiva de vida, uma vila pouco valorizada, sem muitos recursos. Apesar disso, Isaque tinha um comportamento diferente daquela gente. Acordava sorridente, brincava com os cachorros que ficavam na rua, e fazia careta para os ferozes que latiam atrás dos portões. Dava bom dia para as pessoas que encontrava no trajeto do trabalho. Com seu jeito galanteador fazia graça com as moças bonitas que encontrava pelo caminho, elas esnobavam, mas ele não resistia, o dia só tinha graça quando apreciava a beleza feminina. Conversava com Zé do boteco como se fossem amigos íntimos. Mesmo depois do ônibus demorar quarenta minutos para passar, estava ele lá, com o ar da graça dando bom dia e desejando boa semana para todos. As pessoas olhavam para ele como se fosse um louco, ficavam a pensar como uma pessoa poderia estar sorridente morando numa vila escassa, sem vida. Alguns até achavam que Isaque era um amostrado, fingia ser boa gente. Apesar da alegria constante do moço as pessoas não colocavam credibilidade, para eles era patético seu comportamento.

No trabalho, uma quitanda, atendia as pessoas com entusiasmo, fazia poesia para as moças que iam comprar verduras pro almoço, era prestativo em ajudar às senhoras levar as sacolas pesadas para casa puxava assunto de futebol com o Olavo, um senhor vizinho do estabelecimento. Ganhava pouco, muitas vezes contava as moedas para comprar os livros que gostava de ler.

Apartava as brigas do Juvenal e do Manoel no boteco do Zé, eles constantemente se estranhavam por causa de jogo, os dois se odiavam. Isaque, com um discurso de paz e respeito com o próximo tentava amansar os beberrões. O jovem que pouco sabia sobre a vida, dava lição de moral nos marmanjos que brigavam feito crianças.

Não era todos os dias que Isaque acordava disposto, com o mesmo entusiasmo. Como morador da Vila Seca sofria também os dilemas de uma cidade mal valorizada, e tinha angustias que atormentavam o peito. Mas se esforçava ao maximo para que seus dias valessem a pena.

Mais um dia se repete, Isaque continua com sua disposição a viver, sorriso no rosto, entusiasmo no olhar, conversas esperançosas, brincando com os cachorros, elogiando as moças, mas sendo ignorado como se fosse um anormal. Isaque percebia alguns olhares frios, gestos indiferentes, mas não parecia ligar muito para aquelas atitudes que via ao seu redor, ele não gostava de levar a vida de forma amarga, mesmo convivendo num cenário ruim. Para aquela cidade tão castigada pela falta de afeto qualquer atitude positiva era vista como um absurdo. Os moradores levavam a sério o nome da vila.

Certo dia amanhece e o Isaque não vem. Não tem ninguém para brincar com os cachorros, o Zé do boteco não terá aquela conversa empolgante, ninguém ganhará um bom dia entusiasmado, e as moças não serão admiradas. As pessoas no ônibus estranha a ausência do moço amostrado que trazia palavras otimistas para todos. O sr. Olavo não terá companhia para falar do futebol e as senhoras vão levar as sacolas pesadas sem a ajuda do moço alegre.

O tempo fechou, a alegria sumiu. Isaque faleceu. Por conseqüência de um saneamento precário da vila, ele foi contaminado pela peste bubônica, uma grave doença transmitida por animais roedores.

O dia seguinte após seu falecimento, a Vila Seca recebe a notícia da morte do Isaque com um tremendo espanto. Eles perderam sorrisos e alegria. As moças bonitas choram, os cachorros não abanam mais o rabo, até aqueles que o criticavam já sentia falta da presença do moço alegre. Quem mais vai trazer alegria para essa vila tão seca? Seca de afeto, seca de espontaneidade, seca de amor.

A vida do Isaque fazia uma enorme diferença para aqueles corações rancorosos e orgulhos. Só depois da morte do moço alegre, a Vila percebeu que viver sem afeto não valia a pena.

Depois da morte do Isaque a Vila Seca ganhou Vida. Todos da vila começaram a seguir o exemplo do moço alegre. Os vizinhos acordam dando bom dia para os outros, os cachorros da rua também são cumprimentados. O Juvenal e o Manoel, quem diria! Até aqueles beberrões briguentos fizeram as pazes, parecem agora amigos de infância. As sacolas pesadas das senhoras são carregadas pelos jovens, as moças bonitas se enfeitam cada vez mais, e no ônibus as pessoas conversam sobre a vida com esperança no olhar.

Isaque ensinou com gestos simples para aquela vila…que não é mais seca, que a disposição para enfrentar a vida com amor, mesmo em situações de escassez, vale a pena.

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