eu e minha mania de sofrer antecipado

Hoje a angústia resolveu me atormentar. Aquele dia que você acorda com o coração apertado que nem sabe porquê. Ou até sabe, mas não quer enfrentar a causa. Na verdade bateu o medo de perder as pessoas que eu amo.
Eu tenho uma mania de sofrer antecipado, sofro com a perda das pessoas que eu gosto mesmo elas estando por perto, imagino como seria minha vida sem elas.  
Somos incompletos e dependentes de afeto. Quando perdemos pessoas especiais uma parte de nós falece junto. Não tem jeito. E como viver sem amor? Como amar sem sofrer? Não existe amor sem sofrimento.

Tenho difilcudade para despedidas, acho que não sou o único. Essa coisa das pessoas importantes saírem da nossa vida sem ao menos se despedir é um absurdo! E como lidar com isso? Como enfrentar essa angústia? Frases feitas não funcionam, palavra nenhuma funciona.

É péssimo falar sobre perda, péssimo pensar sobre ela, mas sabendo que existe olho para vida com um olhar diferente. Da mesma forma que sofro antecipado quero presenciar momentos bons sem passar desapercebido do meu olhar, cansei de olhar pra traz e dizer aquele clichê “eu era feliz e não sabia”. Na simples conversa com os amigos, conversando comigo mesmo, no banho de sol no quintal de casa com meu cachorro, no bolo de chocolate da minha mãe, nas brincadeiras que faço com minha mãe, ouvindo o dia inteiro a mesma musica, no abraço do amigo gordinho, na conversação espontânea do dia a dia. Como é bom conversar, como é bom caminhar ao lado de uma pessoa e ficar falando da vida.

Eu já sei que vou sentir saudades de algumas rotinas que hoje me enche de vida, elas vão passar, não serão eternas, mas se eternizarão em mim. Vou chorar, me angustiar, querer sumir. Mas perceber que não deixei passar desapercebido a simplicidade de viver.

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Pro Dia Nascer Feliz

“Minha terra porventura merece tal descrição
Lá a vida é menos dura, qualquer um lhe estende a mão
O céu é menos cinzento, lá não tem poluição
Só existe um argumento que me parte o coração
Ver o povo madrugar e seguir para o roçado
Mas se a chuva não chegar perde o que se foi plantado.

Eu agora exilada, só me resta descrever
Aqui não encontro nada que me motive a viver
Mas falar da minha terra, ah, isso me dá prazer
E mesmo aqui tão distante tenho algo para pedir
Quero agora neste instante voltar para Manari.
Pois não quero morrer sem antes lá me despedir.”

Esse poema é de uma adolescente chamada Valéria. Ela mora em Manari, uma das cidades mais pobres do Brasil localizada em Pernambuco.
Quando seus professores aplicavam redação não consideravam como nota os textos que Valéria fazia por acharem que ela tinha copiado de algum livro. Os professores não acreditavam na capacidade da menina simples de Manari, minimizando uma excelente poeta.

O documentário “Pro Dia Nascer Feliz” mostra os desafios da adolescência, essa fase de inquietações, sonhos, duvidas e uma busca de identidade. Também mostra um pouco do cenário da educação no Brasil: cidades onde a infra-estrutura é precária nas escolas e no acesso ao ensino. Professores discutindo de uma forma superficial que destino dar para alunos “problemáticos”, como se estivessem falando de qualquer coisa. Alunos dispostos a aprender, e a falta de professores. Professores desmotivados por falta de valorização dos alunos e da sociedade. A pressão de ter boas notas no ensino privado. Problemas de violência, preconceito, criminalidade, desigualdade social, etc. Professores e alunos vítimas desse sistema educacional emburrecedor que existe no país.
Definido pelo próprio diretor João Jardim como “um diário de observação da vida do adolescente no Brasil em seis escolas”, o documentário flagra o dia-a-dia e adentra a subjetividade de alunos e professores de Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro.

Me entusiasmei vendo essas cenas de pequenos brasileiros criando e fazendo arte. Apesar da realidade educacional no Brasil e da fama de ser um país onde produz muita porcaria, existem pessoas simples e criativas que estão dispostas a aprender e mudar. Na maioria  das vezes elas não são valorizadas nem vistas, e tem uma difícil realidade em volta, mas produzem riquezas. Gente com esperança lutando por uma educação mais digna, por uma vida mais digna.
Como diz a filósofa Viviane Mosé “O Homem precisa de algum conhecimento pra sobreviver, mas pra viver precisa da Arte.”

(O filme foi realizado entre abril de 2004 e outubro de 2005. Quem quiser e puder assistir recomendo. http://www.youtube.com/watch?v=uxEQhcZNHfM)

Um novo caminhar

No dia 7 de agosto de 2011 começava uma nova jornada. Naquela manhã ensolarada de domingo estavam celebrando a Ceia, lembro-me da mensagem do Pr. Ricardo que falava justamente sobre conformismo, viver em prisões religiosas e da acomodação que paralisa a vida. Naquele momento tinha muito haver comigo, estava frágil, não sabia mais o que pensar, estava precisando me reestruturar. Mesmo com um certo medo fui em frente, estava disposto a viver novas experiências, conhecer novas pessoas, elaborar novas idéias. Aproximadamente uns quatro anos que conheço a Betesda, a primeira vez que visitei foi em uma reunião de quinta-feira. Logo que cheguei senti uma paz contagiante, gostei da simplicidade do culto, naquela noite saí de forma diferente, foi transformador. Depois daquele dia não teve jeito, fui conquistado.

Nas primeiras reuniões dos jovens, o famoso JB, pensei “véi, não vou conhecer ninguém por aqui”. Mas foi abrir um sorriso sem graça que já estava falando com toda galera, depois estava marcando pra sair com o pessoal, indo doar sangue com a uma coragem sem tamanho, já tenho até aqueles chatos que fazem parte das novas amizades. Além de tudo a Betesda me influencia a ser simpático, pra um cara tímido e anti-social como eu é uma evolução e tanto. Tive também a oportunidade de mostrar meu futebol bonito, gingado no pé, sou praticamente o Fenômeno dos gramados.

Não mudei simplesmente de uma instituição para outra, muita coisa mudou em mim (inclusive o nome). Comecei a enxergar as pessoas de outra maneira, a respeitar as diferenças, não ser intolerante com a religião dos outros, poupei discussões de egos tentando convencer os outros da “minha verdade”, parei com os discursos prontos forçando as pessoas a terem a mesma fé que a minha, sem ao menos estar disposto a conhece-las do jeito delas. Comecei a ter uma visão de mundo maior; me desviei de um caminho reto onde não enxergava a vida ao redor, saí de um ciclo religioso que se preocupava apenas com a alma das pessoas; como se eu fosse um daqueles “malas” que trabalham em banco de empréstimo, oferecendo para as pessoas apenas um serviço, se preocupando mais em ganhar bônus de um deus exigente do que enxergando o outro. Livrei-me de um regime religioso pobre que não pensava, que não produzia vida.  A Betesda teve um papel muito importante nessa minha nova etapa.

Gosto da Betesda porque ela é uma igreja imperfeita, sendo assim me aceita do jeito que eu sou. Não constrói regras religiosas em nome de uma divindade para enquadrar as pessoas a viverem uma vida utópica onde não tem conexão nenhuma com o cotidiano, nem com a humanidade. Gosto da Betesda porque reforça a idéia de estar junto, de viver em comunidade, de compartilhar vida. Ela enxerga o futuro, mostra  possibilidades de mudanças, de acreditar na vida. Gosto da Betesda porque ela vive os valores de Cristo, alimenta minha fé no Deus de amor, me desafia viver com a mesma integridade que Jesus viveu. Saio das reuniões com esperança no viver, saio pensando, não com uma resposta pronta e instantânea, mas pensando na minha construção como homem. Gosto da Betesda porque me sinto livre para expressar opiniões, discutir idéias. Gosto da Betesda porque ela é simples, é acolhedora, é leve, me sinto em casa. Gosto da Betesda porque ela é única, tem identidade própria, não digo “vou pra igreja” digo “vou pra Betesda”.
Foram tantas as mudanças em tão pouco tempo, Tantas surpresas, tanta gente bacana que conheci, que fazem parte da minha caminhada. Esse novo caminhar tem me feito refletir muito sobre a vida, que ser humano estou me tornando; e ele está apenas no início, tenho muita coisa para viver e aprender.

#EsseÉoMeuJeito.