O vaso de flores

Daniel Santana / Vaso de Flores/ acrílico sobre papel

Daniel Santana / Vaso de Flores/ acrílico sobre papel / 2012

Uma vez ouvi alguém dizendo: “Quem nasceu pra ser um vaso sanitário nunca vai ser um vaso de flores”. Fiquei pensando. Será?

Será que aquele “zero à esquerda” não tem mais jeito?
Será que aquele vagabundo vai ser desocupado pelo resto da vida?
Será que aquele destrambelhado nunca vai prestar atenção?
Será que aquele fracassado nunca vai conseguir?
Será que aquele miserável nunca vai enxergar a vida além do dinheiro?
Será que aquele Merda vai ter sempre aquela vida de merda?
Será que os rótulos que nomeamos as pessoas com tanta determinação correspondem quem elas são? Será que definem a trajetória de vida delas?

Eu ainda acredito na capacidade do ser humano se transformar, na arte de se reinventar, na ousadia de se reerguer.

Acredito naqueles que aprendem com os erros, que encaram o sofrimento de forma digna.
Acredito naqueles que superam seus complexos e param de ser um Problema para os outros.
Acredito naqueles que dizem “basta” para a mesmice.
Acredito naqueles que acordam depois de um longo sono de ilusão.
Acredito naqueles que ampliam sua visão de mundo.
Acredito naqueles que deixam de ser vítimas da vida.
Acredito naqueles que encontram uma razão para lutar.
Acredito naqueles que se livram do inferno existencial.
Acredito naqueles que florescem, naqueles que renascem.

Quem disse que um vaso sanitário nunca será um vaso de flores?

Prazer, eu sou a Vítima

Sofro as maiores injustiças que uma pessoa pode sofrer na vida, coitado de mim.
Sou perseguido, caluniado, discriminado, rejeitado, culpado, humilhado, julgado, e ainda por cima como o pão que o diabo amassou.
Reclamam de mim, falam mal de mim, sou vítima das indiretas de quem me detesta. Sofro decepções de todos que me cercam. Sou traído, trocado e excluído.
 Ninguém gosta de mim,  ninguém tem paciência comigo, ninguém me chama para sair, ninguém me enxerga, ninguém me considera, ninguém me ouve, ninguém me ama, ninguém me quer.
Ninguém me retuita, ninguém me curti, ninguém me comenta, ninguém me compartilha.
Sou cercado por inimigos e por invejosos. Tem sempre alguém contra mim, querendo o que é meu; seja no trabalho, na escola, no bairro, na rua, em todo lugar.
Pego ônibus lotado, tenho o pior emprego, meu chefe me odeia, sou o ultimo da fila, quando chega minha vez o pão está frio – isso quando sobra pão -. Tenho mais problemas do que os outros, meu vizinho é barulhento, minha família é problemática, meu sofrimento é o maior, mas não tenho para quem contar porque sou ignorado.
Sou mal compreendido porque gosto de fazer o bem. Eu só quero fazer o bem, sou uma pessoa boa!
Não xingo no trânsito, não falo palavrão, não aborreço meu vizinho com barulhos, não causo transtornos para minha família, não sinto ódio, não me enfureço, não falo mal das pessoas, não “solto” indiretas, não tenho nada contra ninguém.
Não tenho preconceitos, aceito e respeito às pessoas do jeito que elas são, sou compreensivo, sou justo, sou ético, sou educado, não jugo, não decepciono, não invejo, não provoco, não minto, não vivo.
Eu sou sempre a Vítima.