Meu amigo imaginário é real

A mulher na varanda da casa me olhando com estranheza quando passo pela rua. Um amigo do lado confuso me perguntando: “você está falando com quem?”. Minha mãe preocupada: “meu filho, vou te internar”. Mal sabe eles que estou falando com meu amigo.

Sim, já paguei vários micos conversando com ele em público, tenho que fingir que estou cantando, mas já me acostumei com isso, nem disfarço mais. Fico aliviado quando encontro outras pessoas na rua conversando sozinhas…sozinhas não, com O amigo delas. Além disso tem a tiração de sarro dos amigos e familiares insinuando que sou louco, difícil a compreensão de quem convive comigo.

Não ache que nossa relação é mil maravilhas, muito pelo contrário, as vezes eu brigo, discuto, peço para ele me deixar em paz, ficamos até sem se falar – mas não por muito tempo. Chato é um elogio, o cara é um “Chatonildo”,  faz muita pergunta, quer resposta para tudo, e quando eu respondo ele retorna a perguntar “é isso mesmo? Tem certeza?”. Mas no fundo ele é um cara bacana. Trocamos muitas idéias, elaboramos muitos debates dos mais variados temas, ele me ajuda e muito na hora de tomar decisões. Quando perco as estribeiras me lembra: “Daniel você não é assim”, quando me cobro de fazer tudo ao mesmo tempo querendo o impossível vem ele: “Relaxa Daniel você não é mutante”, quando me acho O cara, ele grita: “DESCE DAÍ”. Ele está constantemente lembrando da minha fragilidade humana, do projeto de gente que sou.

"Tudo o que você pode imaginar é real" (Pablo Picasso) Na verdade, meu amigo imaginário é minha própria consciência, é um Daniel que me enxerga de fora, que me confronta, me lembrando que só eu posso viver minha vida, me pergunta diversas vezes o que estou fazendo com isto que chamo de vida, que me intriga com perguntas difíceis. As vezes deixo as perguntas no ar, sem respostas; deixo o subentendido, o mistério, a incerteza fazerem sentido. Não tenho que saber tudo, não quero saber tudo. Ele me lembra que sou um ser inacabado, que ainda há muito para construir, para aprender, para se viver.

Meu amigo está aqui e mandou um salve para todos os leitores.

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“Eu tenho de”

Temos gravado a fogo, na testa e no peito, uma cruel tatuagem: “Eu tenho de”. A gente tem de estar à frente, ainda que na fila do INSS. A gente tem de ser, como escrevi tantas vezes, belo, jovem, desejado, bom de cama (e de computador, é claro). A gente tem de aproveitar o outro sem piedade ou bancar o forte  e ajudar meio mundo, mas não deve contar com ninguém para escutar as nossas dores. Porque nem lhe daremos chance: a gente tem de ao menos parecer onipotente.

(Lya Luft)

Sou escravo da liberdade

Se sou livre por que tem câmeras para todos os lados controlando minhas ações? Por que tenho que colocar portões altos e fortes na entrada da minha casa? Por que tenho que andar desconfiado pelas ruas?  Por que sou obrigado me alistar no exército? Por que tenho que andar com o RG no bolso por temer ser parado pela polícia? Por que tem polícia? Por que das prisões? Por que das leis? Por que tenho que me vestir igual a todos? Por que não posso sair pelado na rua sem me preocupar com o que vão pensar?

Se sou livre por que tenho que usar cinto de segurança quando estou dentro de um carro? Por que não posso me atirar do alto de um prédio? Por que não posso me atirar na frente de um carro em movimento? Por que não posso matar alguém? Por que não posso gritar na rua? Por que tenho que ter algum motivo para gritar? Por que não me controlo? Por que preciso me controlar? Por que me controlam?

Se sou livre por que preciso de dinheiro? Por que tanta burocracia? Por que tantas perguntas? Por que tenho que trabalhar? Por que tenho que pagar? Por que tenho que gastar? Por que da porta giratória do banco? Por que dos bancos?

Se sou livre por que respeitar meu chefe? Por que não respeitar meu chefe? Afinal, por que ter chefe?

Se sou livre por que tenho que concordar? Por que não posso discordar? Por que tenho que ter opinião formada sobre tudo? Por que não posso mudar de idéia? Por que não posso protestar? Por que tenho que aceitar? Por que não posso aceitar? Por que do sim? Por que do não?

Se sou livre por que tenho que escolher? Por que tenho que fazer? Por que não posso fazer? Por que não posso escolher?

Se sou livre por que não posso herrar? Por que erro? Por que é errado errar?

Se sou livre por que tenho que ser feliz? Por que não posso ficar triste? Por que não posso me sentir bonito? Por que não posso me sentir feio? Por que não posso assumir as minhas qualidades? Por que me esforço tanto para encobrir meus defeitos?

Se sou livre por que não posso falar sobre sexo? Por que só  falar de sexo? Por que não posso discutir futebol? Por que tenho que gostar de futebol? Por que tenho que votar? Por que da política? Por que da manipulação? Por que da alienação? Por que não posso falar de religião? Por que eu só posso falar de religião? Por que da religião? Por que acreditar em um Deus? Por que não acreditar em um Deus?

Se sou livre por que não posso ser sincero? Por que da falsidade? Por que da hipocrisia? Por que da mentira? Por que da verdade? Por que tenho que agradar os outros? Por que tenho que ser gentil? Por que tenho que ser simpático? Por que tenho que ser antipático? Por que eu machuco as pessoas que amo?

Se sou livre por que preciso de pessoas? Por que preciso de fé? Por que preciso de amor? Por que dependo? Por que preciso?…

Se sou livre por que não posso ser livre? Por que tenho que ser livre?

Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo
Brincando ao redor
Do caminho daquele menino…

Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei
O sol ainda brilha na estrada
E eu nunca passei…

Eu vi a mulher preparando
Outra pessoa
O tempo parou prá eu olhar
Para aquela barriga
A vida é amiga da arte
É a parte que o sol me ensinou
O sol que atravessa essa estrada
Que nunca passou…

Eu vi muitos cabelos brancos
Na fonte do artista
O tempo não pára e no entanto
Ele nunca envelhece…

Aquele que conhece o jogo
Do fogo das coisas que são
É o sol, é o tempo, é a estrada
É o pé e é o chão…

Eu vi muitos homens brigando
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada
Vontade encoberta
E a coisa mais certa
De todas as coisas
Não vale um caminho sob o sol
E o sol sobre a estrada
É o sol sobre a estrada
É o sol…

Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa força
Estranha no ar
Por isso é que eu canto
Não posso parar
Por isso  essa voz tamanha.

(Força Estranha – Caetano Veloso)

Força estranha