O afeto no meio da desesperança

Sabe aquele dia que você não quer ver gente na sua frente? Da agonia só de pensar que vai ter que pegar um onibus cheio de pessoas que estarão reclamando do dia que tiveram?
Eu ando desesperançado com a humanidade, de saco cheio da mesmice. É como se as pessoas fossem todas iguais. Desejam e reclamam das mesmas coisas e reduzem a vida com os problemas pessoais. Desconfio de atitudes boas vindo de quem precisa mostrar isso o tempo todo pra todo mundo. O excesso de gentileza e bondade me faz questionar se é verdade ou vaidade. Isso acontece porque vivo em um mundo de medo e consequentemente de mentiras.

E no meio desse tédio e impaciência uma cena me chamou atenção. Voltando pra casa entro no onibus e em seguida sobe um senhor com varias sacolas na mão. Ele deixa as sacolas no banco, abre uma delas e presenteia o motorista e o cobrador com alguns pães doces.
Essa imagem foi como um balde de tinta sendo lançado em uma tela branca. Tão simples, mas tão nobre. Pensar que ele foi no mercado comprar as coisas de casa mas pensando em presentear um motorista e um cobrador. Pode parecer comum, mas deixa de ser comum quando isso não está presente no seu dia dia, quando o mais comum seria pessoas reclamando que o motorista está andando devagar ou o cobrador dormindo.
Eu ainda estou desesperançado porque a mediocridade é maioria, mas não é unânime.
Hoje o afeto me constrangeu e me deu um pouco de vida. E no dia dia, mesmo que eu não veja, vai sempre existir alguém que estará fora da mediocridade interrompendo as vidas cinzas com um pouco de cor, nem que seja presenteando com pão doce.

Foto2465São paulo é o lugar ideal para ser poeta.
É um contraste complexo
Bares com pessoas alegres enquanto uns se jogam de um prédio.
Alegria essa que é para duvidar
Só vejo gente reclamando do tédio.
Se orgulham tanto de uma cidade que não tem tranquilidade
É gente que acha que sabe o que é felicidade.
Enquanto eu me incomodo com uma rotina filha da puta
Quero que essa cidade se torne mais madura.
Não de pessoas sérias e chatas
Mas de alguém que tenha bom senso mesmo usando gravata.
Eu gosto desse cinza, por incrivel que pareça
Quero acreditar que São Paulo um dia amanheça.
Mesmo em uma manhã de outono.
São Paulo é minha inspiração

Mesmo tendo tanta contradição.
Na verdade é justamente isto
Que me aflige a escrever

Esse poema esquisito.

Mais um rosto que mente

No começo desse ano participei de um concurso de exposição de arte do Centro Cultural São Paulo. Mesmo não tendo formação acadêmica arrisquei participar. E o mais difícil, elaborar um anteprojeto em menos de uma semana para mostrar minha arte. Detalhe: não tinha idéia de como fazer um anteprojeto, mas consegui a ajuda do meu amigo que faz quadros comigo a montar um.
O que me inspirou a criar o tema foi a reflexão a partir do que ultimamente vejo nas pessoas que convivo e observo: o medo, a vaidade e a mentira. Mesmo parecendo comportamentos diferentes eles andam juntos.
Meu trabalho não foi escolhido para a exposição, mas aprendi muito com a experiência. Até porque quando eu exponho algo que crio também reflito naquilo que fiz, é algo que me confronta, me faz refletir como lido com o caos que eu sou.

Abaixo está um pouco do trabalho que fiz:

TITULO: Mais um rosto que mente

INTRODUÇÃO: O tema aborda a falsidade que criamos em relação a nós. Enganamos nossas emoções e sentimentos para criar uma sensação de bem estar aparente; mostramos alegria quando na realidade estamos tristes, mostramos coragem quando na verdade estamos com medo, gritamos liberdade na própria prisão.
Esses sentimentos de bem estar aparente nos tornam falsos, nos alto enganamos com receio de sermos sinceros para não agredir o outro, ou acharmos que estamos sendo inconvenientes. Portanto, temos por fim o engano a nos mesmos.

OBJETO DE ESTUDO:  Do livro “ Shakespeare de A a Z – Livro das Citações”  foi retirado a frase “O rosto enganador deve ocultar o que o falso coração sabe .” Essa referência serviu como uma sintese para o projeto, que integra a referência para um apoio mais centralizado entre a literatura e as artes visuais. Essa integração nos mostra que a falsidade estava, e está presente na conjuntura social desde tempos remotos.

JUSTIFICATIVA:  Traz a reflexão o medo que o ser humano tem de encarar seus próprios sentimentos. A falsidade acaba sendo um meio de se livrar da responsabilidade de lidar com as complexidades que o aflige. Não só o medo de encarar as complexidades, mas pela vaidade de mostrar uma imagem positiva para os outros. O ser humano se livrará das falsas imagens que insiste em mostrar quando, a capacidade de tratar suas próprias emoções for maior que a necessidade de se sentir bem constantemente.

METODOLOGIA: Nesse trabalho serão utilizados óleo, acrílico, esmalte, colagem, modelagem e fotografia sobre tela.

 

 

Daniel Santana de Souza 13/02/2011 Yasmin 40cm x 50cm acrílico sobre tela

Daniel Santana de Souza
13/02/2011
Yasmin
40cm x 50cm
acrílico sobre tela

Yasmim: retrata uma jovem que acredita que através do suicídio encontrará um fim aos seus problemas, mas ela não percebe que isso apenas deixa os problemas sem conclusão. Yasmim representa mais um rosto que mente, pois o medo de agir em resposta ao sofrimento impossibilita de tomar decisões em prol de soluciona-los, tendo por fim o suicídio.

 

 

Daniel Santana de Souza 15/08/2012 Jardim em chamas 40cm x 50cm acrílico/ óleo/resina sobre tela

Daniel Santana de Souza
15/08/2012
Jardim em Chamas
40cm x 50cm
acrílico/ óleo/resina sobre tela

Jardim em Chamas: É o retrato da vaidade em mostrar uma imagem de tranquilidade quando as circunstâncias fogem do controle.

 

 

Daniel Santana de Souza 14/01/2013  Falsa Liberdade  40cm x 50cm colagem, óleo, esmalte sobre tela

Daniel Santana de Souza
14/01/2013
Falsa Liberdade
40cm x 50cm
colagem, óleo, esmalte sobre tela

Falsa liberdade: Este trabalho especifica uma falsa sensação de liberdade. O retrato da sensação prazerosa ao tomar chuva nos contrasta com a falsidade que a sensação provoca. Seus corpos não são reais, não possui uma coloração realista, mas um jogo de cores, uma abstração de pigmentos, isso denota que a liberdade é aparente.

 

 

Daniel Santana de Souza 18/01/2013 Série de obras: Mais um rosto que mente Medo da Vida 40cm x 60cm modelagem, colagem, acrílico, esmalte sobre tela

Daniel Santana de Souza
18/01/2013
Medo da Vida
40cm x 60cm
modelagem, colagem, acrílico, esmalte sobre tela

Medo da Vida:  É a imagem do homem que diz não temer coisa alguma, portanto é medroso. O guarda-chuva é uma metáfora que denota proteção. Por mais que ele tenha um discurso de ser corajoso, se refugia por temer o novo, não se permite a viver. As cores da chuva representa a intensidade da vida.

 

 

Pensamentos da madrugada

Enquanto o sono não vinha comecei a refletir…

Coragem não é se vingar de quem te fez mal, coragem é pagar o mal com o bem. Digo que é uma coragem porque o orgulho e a vaidade é tendencia, nunca esteve tão em alta. É uma necessidade de mostrar que é melhor que o outro, impor o poder, provar que é capaz de revidar. Romper isso é um ato corajoso. Quem é que quer sair perdendo? Pagar o mal com o bem é para pessoas fracas, que não tem attitude não é mesmo?
Quem pratica o mal (quando digo praticar o mal, digo uma pratica constante, algo que faz parte da rotina da pessoa) já esta dominado pelo medo. Quem tem medo se proteje atacando. Quem tem medo se afasta dos afetos, se transforma em uma pessoa amarga, já perdeu a sensibilidade do sofrimento alheio. Além do medo paralizar as ações do homem, também faz com que ele se refugie naquilo que o ameaça. Por exemplo, em alguns casos de violência doméstica nos intriga a mulher permanecer com o agressor, ela por ter medo dele se protege na companhia do mesmo. Ela se sente mais protegida com o agressor do que longe dele. Isso é mais comum do que imaginamos.
Por mais difícil que seja a idéia de pagar o mal com bem, afinal, isso é realmente difícil e complexo, devemos admitir que o mal prolifera, é uma corrente destruidora, são vítimas provocando vítimas. Num ambiente onde todos estão fechados com seus orgulhos, medos e vaidades é uma auto destruição persisti com mal. Bater também machuca. Que possamos desenvolver mais nossas capacidades nobres de fazer o bem, podemos transformar o caos com attitudes simples. O mal faz parte da vida, mas ele não precisa ser a regra.
Sei que essa conversa é longa e discursiva, ainda mais falando sobre “bem e o mal ” mas precisei expor pelo menos uma idéia do que percebo.

Meu Jeito

E agora o fim está próximo
E portanto encaro o desafio final
Meu amigo, direi claramente
Irei expor o meu caso do qual estou certo

Eu tenho vivido uma vida completa
Viajei por cada e todas as rodovias
E mais, muito mais que isso
Eu o fiz do meu jeito

Arrependimetos, eu tive alguns
Mas aí, novamente, pouquíssimos para mencionar
Eu fiz o que eu devia ter feito
E passei por tudo consciente, sem exceção

Eu planejei cada caminho do mapa
Cada passo, cuidadosamente, no correr do atalho
E mais, muito mais que isso
Eu o fiz do meu jeito

Sim, em certos momentos, tenho certeza que tu sabias
Que eu mordia mais do que eu podia mastigar
Todavia fora tudo apenas quando restavam dúvidas
Eu engolia e cuspia fora

Eu enfrentei a tudo e de pé firme continuei
E fiz tudo do meu jeito

Eu já amei, ri e chorei
Cometi minhas falhas, tive a minha parte nas derrotas
E agora conforme as lágrimas escorrem
Eu acho tudo tão divertido

E pensar que eu fiz tudo isto
E devo dizer, sem muita tímidez
Ah não, ah não, não eu
Eu fiz tudo do meu jeito

E para que serve um homem, o que ele possui?
Senão ele mesmo, então ele não tem nada
Para dizer as coisas que ele sente de verdade
E não as palavras de alguém de joelhos

Os registros mostram, eu recebi as pancadas
E fiz tudo do meu jeito

(Composição: Claude Fran / Gilles Thibault / Jacques Revaux / Paul Anka. Interprete: Frank Sinatra-My Way)

É Sampa, é São Paulo
Terrinha da garoa, terrinha dos assaltos
Cidade medo, cidade carro
É cinza e ensolarado
As vezes sem cor, as vezes abstrato
Me confundo se é uma empresa ou cidade, se é beleza ou vaidade
Em meio à diversidade o inusitado
O mendigo fazendo arte e o trabalhador apressado
Transito infernal, gente passando mal, vida parada no asfalto
Indiferença no olhar que não mais sonha, já não dorme por causa da insônia
Chega logo feriado! Quero sair dessa Selva de Pedras e me livrar do meu cansaço
É Sampa, é São Paulo
Terrinha da garoa, terrinha do chove não molha, terrinha dos desesperados.

 
Foto0976

Sampa

Conversando com um projeto de gente

O Erik é uma criança que minha mãe cuida durante alguns dias da semana. Ele tem nove anos de idade, mas parece que tem mais…ou não, idade não tem haver com a capacidade de entendimento e boas ideias de um individuo. Gosto de conversar com criança. Assim como elas gostam de fazer perguntas, faço também inúmeras. Pergunto muito para ver como um projeto de gente enxerga o mundo. Fiquei curioso quando minha mãe disse que ele ia ao psicólogo, sempre achei que são os pais que precisam, não as crianças, mas enfim, não sei muito bem como é o dia-a-dia dele. Aproveitei meu curto momento de férias para dialogar com esse camarada, já que ele passa a maior parte do dia assistindo TV. Quem já conversou com uma criança ou tem costume de conversar sabe muito bem que eles não são bobos, apenas tem uma frágil ideia da complexidade da vida. Na conversa que tive com ele, ri, me surpreendi e me envergonhei. Vou postar alguns trechos do diálogo que que tive com essa figura, por mais que seja banal, pra mim foi uma riqueza. Talvez seja isso que dá significados para nossos dias, desbanalizar o banal.

– D: Porque você vai ao psicólogo, tem algum problema?

– E: Acho que não, é que eu tenho muitos medos e pesadelos

– D: humm…mas é normal ter medos e pesadelos, na sua idade também tinha, o que o psicólogo te pergunta?

– E: Ele não pergunta nada, eu fico brincando lá

– D: Sério que ele não faz nenhuma pergunta?

– E: Ele só pergunta que brinquedo quero brincar

– D: Mas, e os seus medos, você acha que isso é ruim pra você?

– E: Medo todo mundo tem, os que dizem que não tem são os mais medrosos

-D: Todo mundo? como você pode falar isso com tanta certeza?

– E: Todo mundo tem algum medo sim, um dia meu amigo que diz não ter medo de nada saiu correndo depois que eu coloquei um filme de terror pra ele assistir.

– D: (risos) Mas é verdade mesmo. Você não consegue ver um lado bom nisso? Qual a parte boa do medo?

– E: Não é parte boa, mas depois que você se acostuma para de ter medo

– D: Humm…tipo, quando você tem um contato constante com o que você tem medo deixa de ter medo? É isso?

– E: É…sim

– D: E a parte ruim de ter medo?

– E: A parte ruim de ter medo é sentir medo

– D: (risos, só risos)

…….

– E: Daniel, me fala um defeito seu

– D: Um defeito meu? ixxii, acho que sou egoista, sei lá, acho isso, e você?

– E: Eu sou muito solidário

– D: solitário?

– E: Não, SOLIDÁRIO, ajudo muito as pessoas, e acabo perdendo bastante.

– D: nossa, mas você acha que ser solidário é um defeito? Você não vê nenhuma vantagem em ser solidário? (lá vai eu perguntar o lado bom da coisa)

– E: O bom de ser solidário é que você ganha amigos, mas perde muitas coisas. Uma vez a menina pediu minha chuteira novinha emprestada, eu fiquei descalço e emprestei para ela, mas ela não me devolveu. Me enrolou, disse que depois entregaria na minha casa, mas foi embora levando minha chuteira, que minha mãe tinha comprado a poucos dias. Acabei indo embora descalço.

– D: Caramba meu, que complicado. E porque você acha que é solidário?

– E: Ah, não sei, eu sinto dó quando vejo gente morando na rua, não gosto de ver as pessoas sofrendo, aí sinto vontade de ajudar. E eu não acho que você é egoísta, você até me ofereceu pão quando a gente estava em casa…

– D: (e mais risos)
Então…não acho que ser solidário é um defeito, você só precisa aprender a lidar com isso, saber a hora de ajudar. Não se ajuda só dando as coisas para os outros, tem outras formas. O fato de você não dar o que o outro quer não significa que você não gosta dele. Mas essa sua capacidade é boa.

– E: hum…entendi

…….

– E: Você tem muitos amigos?

– D: É, amigos são poucos que a gente tem, mas tenho muitos colegas, conheço muita gente legal, e você?

– E: Também tenho muitos amigos…quer dizer, conheço bastante gente. Acho que só tenho um amigo de verdade, mora lá na rua.

– D: Pra você, o que é um amigo de verdade?

– E: Amigo de verdade é aquele que devolve as coisas que pediu emprestado de você e que não te abandona.

– D: Interessante! (apenas risos)

E a conversa foi rendendo…
Ao certo, eram dois projetos de gente tentando responder o que nos aflige e nos afeta, trocando idéias sobre a vida. E foi realmente uma troca de idéias, com certeza ambos aprenderam muito nessa curta caminhada.

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